Atos golpistas em Brasília devem colocar agenda econômica em segundo plano, dizem analistas

1 year ago 64

Os atos golpistas de invasão às sedes dos Três Poderes em Brasília, no último domingo (8), tiveram como consequência imediata, além das respostas institucionais e a percepção de instabilidade política entre agentes econômicos, um entendimento de deslocamento da agenda política nas primeiras semanas de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Enquanto a equipe econômica ensaiava os passos para a apresentação das primeiras medidas na semana que se inicia, o episódio de ontem e suas consequências tendem a concentrar as atenções e esforços do mundo político, ao menos em um horizonte de curto prazo. É o que avaliam analistas políticos consultados pelo InfoMoney.

“A política deve ver um deslocamento da pauta de discussão, que tende a fugir das medidas econômicas do ministério de Fernando Haddad para se concentrar em uma força-tarefa de governo, Congresso e Supremo em direção a reações para encontrar e responsabilizar os culpados pelos atos”, avaliam os analistas da XP Política em relatório a clientes.

“O Planalto pretende exibir reação firme e enérgica para evitar que a possibilidade de repetição dos episódios de ontem seja uma sombra com a qual o governo Lula precise conviver”, prosseguem. Para eles, também é necessário um monitoramento acerca de possíveis desdobramentos que os atos podem provocar entre manifestantes radicalizados espalhados pelo país.

“Com a decisão de Alexandre de Moraes, de dissolução completa dos acampamentos em frente aos quartéis em 24 horas, será importante observar o comportamento de forças policiais e governadores para executá-las”, destacam.

O analista político Rafael Cortez, sócio da Tendências Consultoria Integrada e professor do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), ressalta que os acontecimentos de ontem são “resultado de um longo processo de corrosão instituições”, dificultando a condução de consensos em outros temas da agenda de políticas públicas, como a econômica.

Para ele, a retomada de alguma normalização do quadro, fundamental para a retomada de discussões de políticas, passa necessariamente pela recuperação da institucionalidade envolvendo forças de segurança, sejam policiais, sejam militares – que sofreram forte politização durante os últimos anos de governo de Jair Bolsonaro (PL).

O especialista também destaca que o episódio mostra que “o governo Lula começa com capital político baixo, a despeito da formação da coalizão suprapartidária” no processo eleitoral – situação que traz impactos para o andamento do debate econômico, sobretudo quando são consideras as divergências sobre o tema dentro da própria base do governo.

“Isso, de alguma maneira, aumenta as chances de uma transição no debate econômico mais suave. A ideia de um choque ortodoxo vai ganhando menor probabilidade, porque a questão de maior gravidade passa a ser mesmo recuperar essa institucionalidade democrática”, diz.

Para ele, o comprometimento da agenda vai depender do tempo que a pauta do resgate da estabilidade institucional consumir. Como o Congresso Nacional ainda está em período de recesso, os prejuízos seriam maiores em caso de extensão para além do mês de janeiro.

“Há uma falta de coordenação da base aliada na agenda econômica. O que eventualmente pode dar liga a essa coalizão é a agenda institucional. Essa coalizão, que é bastante heterogênea, não tem um Plano Real, ela foi construída ao risco democrático”, observa.

Embora os episódios reforcem a agenda político-institucional, que unifica as partes da coalizão governista, e esfriem a pauta econômica no curto prazo, Cortez acredita que é possível haver consequências positivas para a governabilidade, diante da percepção de um cenário de risco.

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“O que pode sair de positivo é a ideia de a base aliada contribuir para a governabilidade – até para evitar o agravamento deste cenário”, conclui.

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