Eduardo Leite: 1º governador reeleito do RS volta ao cargo com desafios econômicos e políticos

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Eduardo Leite (PSDB) reassume o cargo de governador do Rio Grande do Sul neste domingo (1) com uma série de desafios pela frente, mas uma projeção nacional que o coloca como possível candidato à Presidência da República em 2026.

A posse será às 11h, no Palácio Piratini, quando o atual governador do Estado, Ranolfo Vieira Júnior, transmitirá o cargo a Leite.

Após lançar seu nome à Presidência para as eleições de 2022, perder as disputas internas do PSDB e decidir concorrer novamente ao governo estadual nas urnas, Leite conquistou um fato inédito na história gaúcha ao ser reeleito governador do Rio Grande do Sul. Leite ganhará ainda mais destaque entre os tucanos, já que em fevereiro assumirá a presidência nacional do PSDB.

Mas, apesar da vitória nas urnas, Leite terá que comandar um estado com déficit projetado de R$ 3,8 bilhões para 2023. Leite diz que o estado tem uma situação fiscal “que inspira cuidado”, mas afirma que seu governo terá “cuidado com a área fiscal como meio para atingir um objetivo”.

Em 2021, quando Leite ainda era governador, o estado fechou o ano com superávit pela primeira vez após 12 anos, o que possibilitou que o governo investisse em grandes obras e formatasse novas políticas públicas.

Mas a receita do Rio Grande do Sul caiu em 2022 após a redução das alíquotas do ICMS sobre combustíveis. Leite prevê que a despesa de pessoal sobre a receita vai aumentar proporcionalmente a partir de 2023, o que pode fazer com que o estado entre no limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal.

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Outro desafio nas contas públicas é o pagamento da dívida que o estado tem com a União. Suspenso desde 2017, o pagamento das parcelas será retomado em 2023 sob as regras do novo Regime de Recuperação Fiscal.

Neste novo ano, o governo deve desembolsar R$ 2,2 bilhões para iniciar o pagamento da dívida com a União. A expectativa é finalizar o pagamento da dívida em 2031.

Além dos problemas econômicos, outras duas áreas também foram foco das promessas de campanha de Leite: a educação e a assistência social.

O governo eleito afirma ter como prioridades o combate à pobreza no Rio Grande do Sul e a melhoria do ensino estadual – bandeiras que Leite pretende empunhar também como formas de se projetar como candidato ao Planalto em 2026.

Marcas da primeira gestão devem continuar

A expectativa no Rio Grande do Sul é de que Leite dê continuidade às reformas, privatizações e racionalização de gastos da administração pública.

Apesar de ter uma base aliada forte entre os deputados estaduais, o governador vai precisar intensificar as articulações para aprovar seus projetos prioritários. Entre os desafios estão divergências ideológicas dentro das siglas que compõem a base aliada, a ampliação da bancada de esquerda e a possibilidade de uma oposição no campo à direita do PSDB.

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Em 2023, o Legislativo gaúcho terá o mesmo número de bancadas que possui atualmente. Do PSDB, serão cinco deputados, um a mais do que os quatro eleitos em 2018. A maioria dos eleitos é do PT – são 11 dos 55 que compõem a ALRS. Mas os seis partidos que compuseram a coligação de Leite nas eleições, PSDB, Cidadania, União Brasil, MDB, PSD e Podemos, somam 17 deputados para 2023.

O PL, que teve Onyx Lorenzoni disputando o governo contra Leite, já anunciou que não vai compor a base do tucano. Para ter maioria, o governo precisa de, ao menos, 28 dos 55 parlamentares.

Apesar das articulações, a primeira prova de fogo do tucano ocorreu ainda em dezembro, antes mesmo de Leite tomar posse como governador. A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou, por unanimidade, a reforma proposta pelo futuro governador, em que coloca o estado com 27 secretarias a partir de janeiro.

Assim, Leite procura ampliar seus aliados, com uma política de aproximação com integrantes de siglas de oposição, em nome de um diálogo “republicano” que poderia garantir estabilidade ao governo eleito.

Até agora, o tucano tem o apoio de deputados do MDB, DEM, PSB, PR e PDT – partidos que também vão compor seu secretariado.

Um trunfo de Leite na relação com a Assembleia é seu vice-governador, Gabriel Souza (MDB). Ele foi deputado estadual e ex-presidente do Legislativo no primeiro governo de Leite. Ou seja, tem as cartas na manga para ampliar a base e garantir apoio parlamentar ao governo.

Privatizações de Corsan e Banrisul

Uma das marcas do primeiro mandato de Leite foram as privatizações. Várias companhias estatais ou mistas foram privatizadas na gestão do tucano.

A mais emblemática foi a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan). O início da operação se deu quando Leite era governador, mas ela só foi arrematada em 20 de dezembro deste ano, quando Ranolfo Vieira Júnior, então vice de Leite, já comandava o estado.

O valor da operação chegou a R$ 4,15 bilhões. Esta foi a primeira privatização de uma companhia estadual de saneamento no Brasil e teve como foco assegurar o cumprimento do novo Marco Legal do Saneamento.

Segundo Leite, o grande benefício da venda da Corsan é o investimento de R$ 13 bilhões que o comprador deverá fazer ao longo dos próximos 10 anos no estado.

Outra grande companhia que está na mira da privatização é o Banrisul. Leite chegou a defender a privatização do banco público gaúcho, mas, diante de protestos do setor e de funcionários, abandonou a ideia. Mas a desistência não é definitiva. O tucano disse que o tema “merece ser discutido nos próximos anos”.

Projeção nacional

Aos 37 anos de idade, Leite tem uma carreira em ascensão na política gaúcha e nacional. Bacharel em Direito, o político elegeu-se como vereador de Pelotas em 2008, foi prefeito da cidade em 2012 e em 2018 venceu a eleição contra para o Executivo estadual, após derrotar José Ivo Sartori (MDB) no segundo turno.

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Em 2022, Eduardo Leite colocou seu nome à disposição para ser candidato à presidência da República. Após uma forte e tensa disputa interna no PSDB, João Doria, ex-governador de São Paulo, foi escolhido pela maioria do partido.

Mas, diante do desgaste de Doria e do xadrez político colocado até então, o empresário desistiu, e Leite manteve seu projeto de sair candidato à Presidência, na tentativa de ser uma “terceira via” à polarização entre Jair Bolsonaro e Lula.

Mais tarde, acabou também desistindo e voltou-se à política local para concorrer novamente ao governo do estado.

A relação de Leite com Lula e Bolsonaro, aliás, foi alvo de desconfiança de críticos, já que o tucano procura pregar a neutralidade em relação a ambos.

Em 2018, Leite votou em Bolsonaro, mas, após anos de governo do capitão, o tucano recuou. Criticou o não andamento das privatizações no país, a falta de responsabilidade fiscal do governo federal e a alta inflação pressionando o câmbio.

Apesar das críticas a Bolsonaro, Leite também não declarou apoio a Lula. No segundo turno das eleições de 2022, o gaúcho decidiu não divulgar publicamente seu posicionamento, que ele afirma ser de “centro” e longe da polarização.

Vencedor das eleições contra Onyx Lorenzoni, ex-ministro de Bolsonaro, Leite ganhou um “apoio crítico” do PT gaúcho no segundo turno, que viu o tucano como um problema menor diante de um bolsonarista assumir o governo do Rio Grande do Sul.

Mesmo com o apoio do PT local, Leite tem dito que fará uma “oposição respeitosa” ao governo de Lula.

2026 é o alvo

Sem posição definida do PSDB entre o petismo e o bolsonarismo, Leite continua a apostar na neutralidade. Diz que seu esforço será buscar reconstruir o PSDB – que saiu enfraquecido na eleição de 2022 – e mobilizar a sociedade rumo à eleição de 2026.

Junto com o Cidadania, o partido formou uma federação, e busca ampliar apoios para os próximos anos. O Podemos é uma das siglas que discute uma aliança com PSDB/Cidadania.

Sobre o novo governo Lula, o tucano diz esperar que a área social seja olhada com maior atenção. Mas Leite afirma ter visões ideológicas e programáticas diferentes do petista, especialmente nos temas de gestão econômica e fiscal.

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Em fevereiro de 2023, quando assumir a presidência do PSDB, Leite terá pela frente a missão não só de desatar os nós dos desafios do Rio Grande do Sul, mas de colocar nos trilhos e encontrar um rumo para um dos partidos mais tradicionais da política brasileira.

Criado em 1988, o PSDB teve uma rápida ascensão nacional e governou o país por duas vezes, com Fernando Henrique Cardoso. Porém, na última eleição, elegeu somente 18 deputados federais, já contando com os que entraram pelo Cidadania, que faz parte da federação. Como comparação, há quatro anos, a sigla conseguiu eleger 29 parlamentares.

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