Haddad: economia está desacelerando há dois trimestres; pessoas estavam iludidas

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Economia
 economia está desacelerando há dois trimestres; pessoas estavam iludidasHaddad: economia está desacelerando há dois trimestres; pessoas estavam iludidas. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a economia brasileira já está desacelerando há dois trimestres, refutando que essa perda de ritmo será resultado das políticas adotadas no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro repetiu que parte do eleitorado do ex-presidente Jair Bolsonaro estava “iludida”, acreditando na retomada.

“Grande parte do empresariado está torcendo para o País dar certo. Muitos não tinham noção do governo que estavam apoiando”, afirmou Haddad, em live promovida pelo site Brasil 247.

O ministro Haddad voltou a dizer que as medidas adotadas por Bolsonaro às vésperas da eleição deixaram um legado negativo para a economia, com um elevado juro real, que dificulta investimentos produtivos, além do gasto fiscal.

“Temos de 6% a 8% de juro real, qual investimento tem essa taxa de retorno? Custou 3% do PIB para tirar o pretexto de Bolsonaro dar golpe no País. Bolsonaro fez tudo para se manter no poder, não fez mais porque não teve condições.”

Encaixe de peças

Fernando Haddad avaliou que apesar do momento desfavorável da economia internacional, o Brasil pode voltar a crescer, com baixa inflação e desemprego, se as “peças forem encaixadas” corretamente.

O ministro considerou que a alta liquidez externa se converte hoje em inflação mais alta nos Estados Unidos e na Europa. No caso do Brasil, ele citou que a situação inflacionária é melhor do que nesses países desenvolvidos, com o maior juro real do mundo.

“Temos inflação comparativamente baixa e taxa de juro real fora de propósito. Mercado sabe disso, não entendo porque esse custo da farra eleitoral não vem a público com clareza”, disse Haddad. “O presidente fadado ao fracasso desesperadamente buscou a reeleição. A expansão de gasto veio acompanhada de brutal elevação dos juros”, completou, voltando a relacionar o ciclo de alta de juros promovido pelo Banco Central às medidas adotadas pelo governo Jair Bolsonaro às vésperas da eleição.

Segundo Haddad, há bolhas especulativas por todo lado no mundo, em um movimento que mostra que “o que ocorreu em 2008”, em referência à crise financeira, não acabou até hoje. “Quando o mercado externo está bom, há condições mais e menos favoráveis. Grande mérito dos grandes governantes é aproveitar janelas de oportunidade. Não é duradouro céu azul em economia de mercado com especulação financeira mundial”, avaliou.

Haddad comenta sobre reforma tributária

O ministro da Fazenda afirmou que a discussão sobre a reforma tributária será iniciada pelos impostos indiretos, a partir de abril, com a criação de um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) para simplificar a cobrança. Depois, o governo deve atacar a reforma dos tributos diretos, incluindo a tributação de lucros e dividendos, hoje isenta.

“Cesta de tributos no Brasil tem muito imposto indireto e pouco direto. Sem aumentar carga, podemos recompor cesta para sistema menos regressivo. Redistribuímos renda pelo gasto, mas não podemos abrir mão de redistribuir pela receita”, afirmou o ministro.

Haddad reconheceu que não será fácil a aprovação da reforma, mas apontou que o governo anterior foi muito ambicioso e inviabilizou a votação da reforma, com defesa do retorno da CPMF.

Segundo ele, a ministra do Planejamento, Simone Tebet, disse que o governo de Jair Bolsonaro não quis votar a reforma tributária. À época, Tebet estava no Senado. “Estive com Tebet, que disse que o governo Bolsonaro que não quis votar tributária. Tebet disse que pediu para votar a tributária no Senado, mas o governo Bolsonaro queria CPMF. Muita ambição às vezes inviabiliza a reforma, precisamos ser pragmáticos”, comentou.

O ministro ainda considerou que a falta de limites para deduções no Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) gera abusos.

Haddad, rechaçou qualquer tipo de meta para a taxa de câmbio, mas admitiu que a volatilidade da moeda é um problema. “Não está em discussão ter meta para câmbio, mas o problema da volatilidade do câmbio é grave e atrapalha. O real é uma das moedas mais negociadas do mundo, mesmo sem ser conversível como o euro e o dólar. Ela é negociada pelos especuladores justamente por essa volatilidade, que é um mal para a moeda”, afirmou.

Haddad lembrou que essa volatilidade do câmbio faz com que os investidores não tenham um horizonte de planejamento para investimentos, sabendo qual será a taxa interna de retorno dos projetos. “Podem dizer que há uma média para o câmbio, mas os investidores não podem contar com a sorte, muitas vezes eles precisam de liquidez”, completou.

Para o ministro, as taxas de câmbio e juros estão entre as variáveis mais importantes para a confiança dos investidores no País, mas ele enfatizou ser impossível colocar metas para esses indicadores que, nas suas palavras, “respondem tão avidamente às forças de mercado”. “Mas é possível atuar com a governança das contas públicas para estabilizar juros e câmbio, reduzindo essa volatilidade”, concluiu.

CMN vai voltar a ser formado por Fazenda, Planejamento e BC

Haddad, afirmou que o Conselho Monetário Nacional (CMN) voltará a ser formado pelos chefes da Fazenda e Planejamento, além do Banco Central, como já havia informado na segunda-feira, 2, a ministra de Gestão, Esther Dweck. No governo Jair Bolsonaro, foi formado um superministério da Economia, então o conselho era formado pelo ministro da pasta, pelo secretário especial de Tesouro e Orçamento e pelo BC.

Haddad afirmou que ele, Dweck, Simone Tebet, ministra do Planejamento, e Geraldo Alckmin, ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviço, têm visões diferentes e avaliou que isso é positivo.

Mas reconheceu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai participar da “mesa de discussões” da equipe econômica. “Decisão do presidente equipe cumpre. Lula governa ouvindo as pessoas, gosto desse estilo”, afirmou.

O ministro disse esperar que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviço (MDIC) seja relevante na reindustrialização com transição ecológica. Sobre a atuação da imprensa, Haddad considerou que uma parte está de boa fé e “está informando com mais ou menos bom humor”.

Por outro lado, avaliou que há uma parcela da imprensa que é viúva da derrota e está torcendo contra, apostando no fracasso. “Os fatos vão se impor, medidas vão se impor. Em 2003, Lula estava cercado de muito ceticismo. Não é diferente agora, mas nossa casca é grossa.”

Prazo para posse de Prates influenciou na decisão sobre combustíveis, diz Haddad

Haddad, afirmou que a decisão de estender a desoneração tributária sobre gasolina e etanol por 60 dias foi adotada em virtude do tempo que será necessário para que o senador Jean Paul Prates assuma a Petrobras (PETR4). Na medida provisória, os impostos federais sobre diesel, biodiesel e gás de cozinha foram mantidos em zero até o fim deste ano.

Haddad argumentou que o ex-ministro da Economia Paulo Guedes tinha sugerido a renovação da política adotada às vésperas da eleição no ano passado por 90 dias, mas que ele queria 30 dias.

“Como é muito improvável que a nova diretoria da Petrobras assuma antes de 60 dias, ficou 60 dias. Não ficou nem os 90 dias do Guedes nem os 30 dias que eu queria”.

Sobre os postos que estão elevando os preços de combustíveis apesar da extensão da desoneração, Haddad disse que é tarefa dos Procons atuarem contra a especulação. “Quem estiver aumentando preço após MP está atuando contra economia popular.”

Com Estadão Conteúdo

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